Rádio da Innana

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Nadia Gamal (1937-1990)



Nadia Gamal é filha de mãe italiana e pai grego. Nascida como Maria Carydias em Alexandria no Egito, sabia tocar piano, era versada em diversas modalidades de dança como ballet e sapateado e começou a atuar junto com sua mãe no teatro e dançando músicas folclóricas europeiass. A oportunidade da dança do ventre veio aos 14 anos com um convite para dançar no Líbano, apesar da proibição do pai devido a pouca idade da bailarina. Depois de começar a carreira, transformou-sem uma bailarina muito popular, estrela de vários filmes árabes e indianos. Em 1968, foi a primeira bailarina de dança do ventre a se apresentar no Baalbeck International Festival. 

Dançou no Cairo Opera House para o rei Hussein e para o xá iraniano. Fez turnê pela Ásia, Europa, América Latina, América do Norte. Falava sete línguas e foi a primeira bailarina a dançar o Zar em uma performance oriental. Foi diagnosticada com câncer em 1990 e, durante o tratamento, contraiu pneumonia e morreu.

É conhecida pelo trabalho de chão que faz em suas danças, pela dramaticidade provavelmente herdada de sua mãe, que trabalhava no teatro, pelos deslocamentos rápidos e grande intensidade em seus movimentos. Usava magistralmente os snujs. Relacionou-se amorosamente com Farid El Atrach (cantor e ator), Setrak Sarkissian (músico), Shafiq Hashe (violinista), e Mounir Maasiri (cineasta). 

Sempre dizia que: 

 “eu danço para mim mesma, não para a plateia. Eu tenho sido uma bailarina profissional por mais de 35 anos e ainda me sinto como uma estudante. Um artista não pode nunca parar de aprender porque a arte não tem limites. A dança oriental é a dança da feminilidade e a bailarina deve expressar o que sente com o corpo, a face, as mãos... amor, fúria, alegria, ódio”


terça-feira, 26 de agosto de 2014

LEVANTA E DANÇA!

A fibromialgia machuca tanto o corpo que a alma se despedaça. Não é possível falar dessa doença sem falar da depressão. Sem dormir, com dores absurdas, um mundo carregado de incompreensão, levam a mulher a uma tristeza profunda, a acreditar que é incapaz e que tem menos valor. Relacionamentos são prejudicados e tudo é só uma casa desabando. Eu tenho os dezoito pontos da dor e sei que, nos momentos da crise, dá vontade de se bater contra a parede, de desistir, de ficar deitada e apenas chorar.
É nessa hora, entretanto, quando nada faz sentido, quando a vida é um fardo, quando não se vê saída, que a subida para o bem-estar pode ter seu início. Levanta e dança! Vai doer, você não terá forças, estará exausta, mas se OBRIGUE. As endorfinas vão começar a circular, seu corpo irá se soltar e as dores, se não diminuírem, pelo menos terão importância menor que a alegria de ver que seu corpo também é capaz de coisas tão bonitas.
Não há remédio que cure, não há tratamento que cure. É a batalha de uma vida inteira. Sim, haverá momentos em que a cama será o único desejo, que você irá gemer e chorar. Pega tuas lágrimas e DANÇA! O movimento, a música de que você gosta, o alongamento, a força, alcançar aquele passo, tudo isso é melhor que Lyrica, Cymbalta, Fluoxetina, Venlafaxina e qualquer outra droga que nos rouba de nós mesmas. A dança é uma arma a seu favor nesse combate, é sua ilha de bem-estar, é o arco-íris a ser visualizado quando tudo ficar cinza, é ali que você irá colocar seu coração nos momentos de grande dor. Um dia de cada vez. E dança todo dia.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

FARIDA FAHMY in film "Asyad wa Abeed" 1978 (by Omar Fakhfekh)

FARIDA FAHMY


Farida Fahmy nasceu em 1940 no Cairo, filha de uma britânica e de um engenheiro egípcio. Sua biografia está visceralmente ligada à história de Reda Troupe, um grupo que transformou em grandes espetáculos teatrais o folclore egípcio. Sua irmã Nadya era casada com Mahmoud Reda, que resolveu organizar juntamente com seu irmão, Ali Reda, um dos mais famosos grupos da dança oriental. Conhecida pela suavidade com que entrelaçava um movimento ao outro, é a única mulher co-pioneira do grupo.

Aos dezessete, estrela seu primeiro filme. Casa-se com Ali Reda e são, assim, dois irmãos para duas irmãs. Durante a década de 70, passou a desenhar os figurinos para a troupe, que eram um primor de elegância, jogo de cores e qualidade. Recebeu o título de Star of Jordan (1965), Egypt's Order of Art and Science e The Order of Tunisia (1973). Tem mestrado em arte e etnologia da dança pela Universidade da Califórnia (UCLA) e já visitou mais de 60 países para apresentações e workshops. Foi estimulada a praticar esportes e a dançar desde a infância. Sua graciosidade e acuracidade técnica a tornam uma bailarina única. Afirmava ser uma flor em um buquê. Melda, nome original de Farida, acompanhada pela irmã e a mãe, confeccionaram os primeiros figurinos da Reda Troupe. Seu pai foi um grande incentivador de sua carreira e foi ameaçado várias vezes por permitir que suas filhas dançassem. Na revista americana Ballet Today (1961), apresentaram a seguinte fala de Hossam Fahmy, pai de Farida:

“Dançarinos homens eram considerados efeminados e mulheres bailarinas consideradas vulgares. Nossa meta é convencer as pessoas que dançar é uma arte em que pessoas de boas famílias podem participar sem embaraço. Minha família e amigos ficaram chocados quando souberam que permiti que minha filha dançasse em um palco. Devo confessar que eu fiquei em choque quando minha filha Nadeeda quis se casar com Mahmoud Reda, mas eles me convenceram e agora queremos convencer o público que dançar é uma arte. “

Farida se afastou dos palcos com pena para fazer seu mestrado, mas seu pai a alertava que era preciso alimentar a mente, já que a juventude tem fim e ela não poderia estar nos palcos para sempre. Nas palavras dela:
“Eu estava totalmente entregue ao que estava fazendo. Eu adorava estar no palco. Eu adorava o palco. Eu tinha uma intuição de palco que raras pessoas tinham. Eu sabia que as pessoas e amavam e sabia como chegar até elas. Havia uma energia que eu sentia que vinha das pessoas, do pública, da vida, da minha vida cotidiana, do taxista ao açouqueiro e ao ministro.”



sexta-feira, 20 de junho de 2014

Nós, os sem ninho


Disseram que teríamos casa para ensinar
E nos deixaram sem teto
Disseram que o bom professor dá aula em qualquer lugar
E se esqueceram de que o professor não é a vida
Não precisa o médico de seus equipamentos?
Não precisa o engenheiro de seu concreto?
Do que precisaria o professor além de suas palavras?
De que precisariam os construtores do saber além de seus corpos?
De um ninho
Assim como o pássaro precisa usar toda sua tecnologia para proteger os filhotes
Não é o saber algo a ser nutrido para que cresça sem limites?
O lugar dos educadores é geográfico e é infinito
São espaços de tijolos agasalhando o imensurável desenvolver das sementes humanas
Disseram que deveríamos fazer a pedagogia da miséria
Enquanto recebiam as brisas frescas em seus castelos
Disseram que a educação não precisa de muito alimento
Enquanto arrotavam seus estômagos entupidos de iguarias caras
Disseram que a culpa da miséria é do miserável
E se esqueceram que a culpa do oprimido é o opressor.
Disseram, disseram muitas coisas
E suas palavras soltas em ventanias
Aspergiram venenos e discórdias
Colocando espelhos em espelhos
Até que seus atos não pudessem ser observados
E fizeram muito mais com sua pedagogia do não
Mas, aqui, empunhando esse conhecimento gerado pelos recursos dos homens,
da natureza, e do pensar ininterrupto
Daqui, de onde perduram os ideais
Eu vejo o lar dos que ensinam
É uma casa de enormes braços e janelas
É um ninho em que são nutridos seres humanos de muitos caminhos
Daqui, de onde a luta pela justiça se mostra desanimadora,
De onde irmão atira contra irmão
Daqui, brota a força vital do ensino
O inconformar-se para construir
Disseram que é a vontade que faz as coisas se acertarem
E apresentaram pratos vazios para que os enchêssemos de comida apenas com nossa fome
Disseram que o bom educador tem uma estranha mágica
A mágica de ser Deus, com a palavra, gerar a matéria
E o educador disse “que se façam os livros”. E nenhuma folha brotou
E o educador disse “que se façam os equipamentos”. E apenas o vento vazio soprou
Que nos desculpem os reis encantados por reinados
Mas não somos Deus
Somos apenas seres pequenos e mortais
Sem poder de assinatura
Sem o cetro de governar
Nosso poder é pouco para os seus papéis
Ele é um gigante quando toca a vida das pessoas
E, ao apresentar-lhes que atrás dos castelos moram homens comuns afogados em autocontemplação,
Verão que as muralhas são apenas papel fino
Disseram que não somos importantes
Mas nós não ouvimos
E queremos nosso campus para cultivo
E ele se encherá de música, sonhos, ações, reações
Queremos vida em nosso cultivo
E nós diremos
Isso é terra de vida
Não é um túmulo
Aqui, serão tecidas delicadas existências
Perenes resistências
Queremos o campus para o trabalho e para a alegria
Porque nas palavras que aqui temos
Está o coração do futuro

segunda-feira, 16 de junho de 2014

NAIMA AKEF


1939-1966

Naima Akef era neta de um ex-oficial, professor de ginástica e treinador que resolveu entrar no ramo do circo. Seus pais eram acrobatas e, aos quatro anos já se apresentava com a família. Aos quatorze anos, Naima enfrentou o divórcio de seus pais. Seu avô conseguiu um teste para ela com Badia Masabni, e ela conseguiu seu primeiro contrato. Aos quinze anos, já era uma bailarina conhecida. No Ki Kat Club conheceu seu futuro marido, Hussein Fawzy, uma famoso diretor de cinema, e apesar da diferença de 25 anos deidade, se casaram. Aos quinze anos, ela já era uma estrela de cinema. 

Ganhou vários concursos. Dançou mais em filmes que em clubes noturnos. Ficou conhecida pela sua generosidade e disponibilidade em ajudar. Era excelente na criação de suas rotinas de dança e também seguia com rigor as coreografias feitas para ela. Contam-se duas famosas histórias a respeito de Naima. Uma delas, ela, ao invés de descansar nos intervalos das gravações de um filme, se dispõe a ensinar uma das figurantes que estava com dificuldade em executar os passos. A outra conta que Naima despertou muita inveja nas bailarinas que se apresentavam com ela no Badia Club. As invejosas se juntaram para machucá-la, mas ela conseguiu se defender e revidar graças a sua força e agilidade. Todavia, perdeu o emprego e conseguiu se posicionar no clube onde encontrou seu primeiro marido. As raízes ciercenses de Naima encontram expressão em sua dança, na expressividade de seus movimentos, na expressividade que lhes oferece, na teatralidade de suas apresentações.

Ela se divorciou de se seu marido em 1958 e casou-se, posteriormente, com Salah Abdel Aleem, com quem teve um filho. Retirou-se ainda cedo dos palcos e do cinema para dedicar-se a seu filho. Naima morreu, aos 27 anos, vítima de câncer.


segunda-feira, 26 de maio de 2014

MONAH SAID


Nascida Monah Ibrahim Wafa, no Egito, fugiu para o Líbano aos treze anos para atuar profissionalmente na dança e para fugir de seu pai, que queria matá-la por envergonhar a família sendo bailarina. Alertada pela mãe, fugiu. Cinco anos depois, em 1975, retornava ao Cairo já como bailarina reconhecida no Oriente. 

Tahia Carioca a apelidou de princesa do Raks Shark. Sempre buscava os melhores músicos para suas apresentações e gostava de se apresentar com grandes orquestras. Sua leitura musical era tão precisa que, por vezes, ela comandava os músicos e, em outras, os músicos a conduziam. Foi estrela de sete filmes. Seu estilo preciso, tipicamente egípcio, de movimentos contidos, braços liricamente trabalhados e sua ênfase em movimentos de contenção pélvica apresentaram ao universo da dança novas leituras. Sua apreciação dos humores da música apresentavam à plateia o amor pela dança, seus movimentos fluidos, bem marcados, resultado de grande controle corporal, evidenciam seu grande domínio técnico. 

É uma bailarina alta, de 1,75 m. Uma das suas assinaturas é parar em alguns momentos para enfatizar um movimento. Em uma das aulas de Monah, ela ensinava, “não comece o círculo mostrando seu estômago” , “traga seu interior para fora”, “ame a si mesma que os outros a amarão”. Ouviu, aos treze anos, quando dançava em um clube chamado Triang a Go Go, foi chamada por Anwar Amar, que lhe disse que deveria se tornar bailarina profissional, pois era bonita e dançava muito bem. Leila Murad, uma grande cantora da época, estava ao lado dele e reforçou “você deve dançar, você tem um aparência artística. E nunca se case, dedique-se a sua dança.” Casou-se sete vezes e seu primeiro marido era filho do presidente do Líbano. Questionada pela quantidade de casamentos, responde “Eu gosto de homens. Por isso mudo tanto”. Não conseguiu ter filhos.

Uma de suas frases, “Se você é uma boa bailarina, se você tem um bom estilo, você voa como um Concorde. Você não tem que se sentar no chão, comer areia ou pedras. Eu sou um Concorde”. Dançava na meia ponta, gostava de marcar as contenções e de marcar os shimmies com a perna de trás e marcava esse movimento com uma contenção de abdômen. Seus figurinos luxuosos são referência até hoje. Quanto à carreira de bailarina, dizia que não gostava de dançar noite, após noite, ano após ano, que gostava de dar pausas, para que a dança não se transformasse um fardo. Foi uma das treinadoras das bailarinas de Bellydance Superstars.


quinta-feira, 22 de maio de 2014

NAGWA FOUAD



Awatef Mohammed El Agamy, conhecida comoNajwa Fouad, nasceu em 06 de janeiro de 1939, filha de pai egípcio e mãe palestina, começou a dançar aos 14 anos em festas tradicionais. A família mudou-se para o Cairo depois que ela percebeu que poderia dançar profissionalmente. Dançou em pequenos clubes antes de chegar às grandes casas de espetáculo. 

Era elogiada pela sensibilidade, delicadeza e técnica. Estudou vários estilos ocidentais como ballet, jazz, sapateado, flamenco, tango além de aprofundar-se nas danças orientais. Brilhava tanto nas fusões que realizava quanto nos estilos clássicos e tradicionais. 

Como Hossam Hamzy afirma, era uma bailarina que mostrava a música em 3D, que personificava a música produzida pela orquestra. Foi casada com Ahmad Fuad Hassam, produtor e viloinista que a convenceu a fazer performance no palco de City Lights, onde grandes nomes da música haviam se apresentado. Como ela mesma afirmou: “Hassam era dezessete anos mais velho que eu, mas eu precisava dele, ele desenvolveu meus talentos amadores”. A união durou seis anos e dissolveu-se porque Nagwa não desejava filhos. Atuou em muitos filmes, como Sharei El Hob (The Street of Love). Para ela, Mohammed Abdel Wahab compôs Amar Abaatasher. (a lua de 14 de julho, a face mais bonita). Quando se aposentou, dedicou-se ao cinema integralmente. De personalidade forte e extrovertida, alguns artigos afirmam que Nagwa não apreciava suas contemporâneas Dina, Suheir Zaki, Tahya Carioca e Samia Gamal. Em uma entrevista, chegou a afirmar que Dina não prendia sua atenção. Nas palavras de Nagwa, “essa dança não é apenas sacudir sua cintura e sua bunda”.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Soheir Zaki (green bedlah) Pt 1

SUHEIR ZAKI



Soheir Zaki nasceu na década de 40 em Mansoura, no Egito, em uma época em que mudanças sociais estavam acontecendo, casamentos urbanos se tornavam cada vez menos segregadores e um convívio maior entre extratos sociais aconteciam, os Wahalim, grupos liderados por uma mulher, a Usta, começaram a se dispersar e a fazer com que as bailarinas se encarregassem de promover suas carreiras. Soheir, aos nove anos, já animava festas de casamentos de amigos e familiares. Mudando-se, ainda muito jovem, para Alexandria, e, sem seguida, para o Cairo, onde começou a dançar em pequenos e grandes clubes, foi reprovada em um teste para apresentadora de televisão, mas construiu uma sólida e grandiosa carreira como bailarina e nos filmes em que atuou. Aprendeu a dançar em um autodidatismo gerado pelas músicas que ouvia pelo rádio e inspirada por bailarinas como Samia Gamal e Tahia Carioca. Foi a primeira bailarina oriental a dançar uma música da reverenciada Oum Kanthoum. Arriscou-se e foi elogiada pela própria cantora. 

O terceiro presidente do Egito, Mohammed Anwar Al Sadat afirmou que Soheir Zaki é a Oum Kanthoum da dança, enquanto ela canta com a voz, você canta com seu corpo” Era uma bailarina de estilo preciso delicado, que não se valia de artefatos ou de outras bailarinas, apenas ela e sua orquestra. A música Shik Shak Shok foi escrita especialmente para ela. Ao contrário da maioria das bailarinas de sua época, ela não contratava coreógrafos para auxiliá-la, preferia ser a música, deixar que a própria música guiasse seu corpo.
Na década de 90, o declínio econômico e uma onda de conservadorismo quebraram a época de ouro da dança e Soheir aposentou-se em maio de 2001 e ficou a ensinar centenas de bailarinas.

Uma de suas frases mais fortes “Elas (as bailarinas ocidentais de sua época) nunca atingirão o nível das bailarinas egípcias. Elas não possuem o espírito vivaz, elas não têm o senso de humor, elas não têm o ouvido musical. Elas somente executam os passos que aprendem 1, 2, 3, 4. Mas elas não têm o espírito.” Apesar da controversa afirmação, fica o ensinamento de que a música deve vibrar dentro da bailarina para que a dança tenha alma.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

DANÇA DO VENTRE E FIBROMIALGIA

O diagnóstico de fibromialgia é uma conjunto de desenganos, desrespeitos e desencontro de informações. Até o paciente alcançar essa constatação pela medicina, ele já passou pelo ortopedista, neurologista, psiquiatra, constrangimento familiar, acusações de preguiça e mania de doença. Porque a fibromialgia não aparece no raio-x, no exame de sangue, na tomografia. E, mesmo assim, é uma dor viajante, que deixa suas pegadas fincadas em todo o corpo e que acaba levando à exaustão pela constância do sofrimento e do sono não-reparador. Dizer se a depressão é uma consequência da fibromialgia ou a fibromialgia é uma consequência da depressão, isso ninguém conseguiu responder.

Após um exame no próprio consultório do médico, em que ele irá tocar os chamados pontos de dor, que são dezoito, a paciente pode receber o diagnóstico de fibromialgia se onze deles doerem ao serem tocados. Eu tenho os dezoito e acredito ter inventado outros. Não é uma dor localizada, é o corpo todo doendo difusamente, e, quando a dor é grande, a agonia que dá é como se tivessem nos aplicado um opiáceo, como se estivéssemos profetizando grandes desgraças. E não se dorme ou se dorme muito mal.

Os tratamentos são múltiplos e geralmente integram atividade física, medicação e acompanhamento psicológico. Eu já fiz hidroginástica, hidroterapia, acupuntura, massagem, pilates, natação, tomei lyrica 150mg três vezes ao dia, cymbalta 60mg duas vezes ao dia, passei pelos rivotril, cloridratos da vida... Até que um dia, resolvi dançar. Garanto que eu não me levanto saltitante e vou para a aula de dança, eu me arrasto da minha dor até lá, mas quando a aula começa, não sinto dor, tristeza e mesmo algumas horas depois, ainda sinto bem-estar.

Não vou mentir que a dança do ventre e o balé zeraram minhas dores, mas eles são o melhor tratamento de todos os que experimentei, e, deles, os efeitos colaterais são um corpo mais saudável, forte, flexível, bem diferente dos estragos que os outros remédios provocam. Comecei a dança do ventre há mais de seis anos. Interrompi esse percurso várias vezes, sendo derrotada pelo desânimo e pela dor. Há três anos, resolvi levar a sério, parar de pagar mensalidades e desaparecer das aulas. Fiz dança contemporânea, comecei a fazer balé em seguida e não faltei mais à minha dança do ventre.

Coloquei como tão importante quanto meu trabalho  e a educação dos meus filhos. E fui percebendo que, quanto mais tempo de dança eu fazia, mais minha qualidade de vida aumentava. Alcancei resistência, fôlego, e minha percepção positiva das coisas aumentou. Sinto muitas dores, mas, agora, é como seu estivesse em alto-mar sabendo o endereço de cada ilha onde tem água e areia morna para descansar. Sempre que chego das aulas, estou em paz, cheia de energia e sem dor alguma. Mesmo depois de alongamentos punk da aula de balé.

Finalmente, aos 36 anos, consegui achar bonito o que está no espelho, consegui me enxergar mulher e uma satisfação com meu corpo que nunca pensei em atingir. Não mudaria nada, nem minha pele da barriga toda soltinha depois de duas gravidezes em que engordei mais de vinte quilos em cada uma. A dança do ventre traz o prazer do movimento, me coloca em movimentos que meu corpo alcança, tenho prazer enorme nos sinuosos, gosto de sentir meus músculos sendo trabalhados e atuando em função da dança. O que mais me exige treinamento são os shimmies, tremidos, porque eles demandam pernas e quadril e, por vezes, a fibromialgia provoca uma tensão tão grande em todo corpo que os movimentos todos se travam, preciso me aquecer nos sinuosos, me alongar e só aí alcançar esses movimentos.
Acho lindo o jogo com o tronco, os cambrets, mas tenho três hérnias na coluna que me exigem cuidado. Todavia, sinceramente, não são elas que me seguram na extensão desses passos, são os músculos que se retesam e seguram. Nessas horas, melhor aquecer tudo de novo. Todo o corpo fica em estado de tensão por causa das dores, por isso preciso tanto me alongar e por isso preciso tanto do balé para fortalecer minha musculatura de forma ainda mais acentuada.

Houve um dia em especial, que cheguei em casa aos prantos, porque nenhuma das sequências que planejei fazer ficaram boas porque meu corpo se recolheu a si mesmo e me deixou à deriva da dança que tanto amo. Pensei em desistir e me entregar. Para que insistir em algo onde eu nunca alcançaria a excelência, em que estaria sempre estagnada na mediocridade. Ainda bem que tenho amigos e professoras que me empurraram, me abraçaram e me olharam com  a generosidade que eu mesma era incapaz de me dar.

E continuei, me obriguei, porque, para um corpo fraco, há que se ter um espírito forte. E cheguei a uma conclusão que funcionou como um bálsamo milagroso, uma anestésico para a dor, uma cura mental e física. Eu estava olhando tudo errado. Eu estava com o espírito perverso da competição ao invés da evolução. E, finalmente, entendi, que meu corpo é muito maior que o destino a ele dado. Entendi que meu corpo é meu amigo, que quando um movimento foge de seu alcance, ele me dá outro tão bonito quanto. Entendi que meu corpo não é incapaz. Meu corpo é um universo colorido cheio de novas entradas e saídas e todas elas podem me levar a danças ainda não feitas, a histórias que quero contar, a um mundo onde é possível não ser definido pela dor. Dançar é uma oração que faço todos os dias. Com a dança, enfeito o meu altar mais valioso, o meu corpo.

Hoje, sou professora de dança do ventre, porque eu quero oferecer às mulheres o espelho que elas merecem. Que elas se fortaleçam, não para competirem entre si, mas para crescerem juntas, mudarem o mundo com sua sinergia. Obrigada, fibromialgia, sem você, eu não teria me dedicado tanto. Sem a minha asinha quebrada, eu não teria voado tanto...

terça-feira, 15 de abril de 2014

CANDELABRO

Dança na qual a bailarina usa um candelabro sobre a cabeça. Recomenda-se que haja um véu sobre a cabeça, embaixo do candelabro.
O candelabro pode ter de 7 a 14 velas, dependendo da preferência. Quanto menor o número de velas, menor o candelabro, e mais delicado.

Seu nome egípcio é Raks El Shamadan e sua provável origem é grega ou judaica.
É uma dança antiga que fazia parte das celebrações egípcias de casamento, nascimento e aniversários, como ainda o é em muitos países árabes.

Assim, é comum que uma bailarina entre como em um cortejo à frente dos noivos, dançando com o candelabro. Desta maneira ela procura iluminar o caminho do casal, como uma forma de trazer felicidade para ele. É uma dança que serve para celebrar a vida e a união entre as pessoas.
Não tem traje ou ritmo específico, mas geralmente dança-se ao som do ritmo Zaffe ou na versão mais lenta do Malfuf.

De qualquer forma é importante que a música seja lenta, pelo menos na maior parte do tempo, pois com o candelabro não é possível realizar muita variedade de movimentos rápidos.

É uma dança que requer mais movimentos delicados e sinuosos, além de bastante equilíbrio.




http://www.centraldancadoventre.com.br/modalidades/15-danca-do-candelabro

Ju Marconato - Dança com Candelabro (+playlist)

segunda-feira, 7 de abril de 2014

أم كلثوم ــ أنت عمري ــ كاملة

OUM KANTHOUM


Oum Kanthoum foi uma cantora egípcia que, não se sabe com precisão, entre 1894 e 1904. Nascida de uma família pobre, demonstrou, desde cedo, seu talento indiscutível. Seu pai era um imã local que convidava as pessoas para as orações e recitava o Alcorão em ocasiões festivas. 

Talvez, essa sua base religiosa, musicalmente profunda no universo árabe, tenha lhe oferecido a emoção inigualável em suas performances musicais. Aos doze anos, seu pai a disfarçou de menino para que pudesse integrar a companhia de recitação que ele dirigia. Quando sua família se mudou para o Cairo, seu pai fez questão de contratar professores de música para aperfeiçoar o talento da filha. 

Orgulhosa de sua origem humilde, Oum Kanthoum era uma mulher regiamente instruída, versada em literatura árabe e francesa. Seu encontro com Ahmed Rami renderam 137 canções e um aprofundamento na poesia árabe. Grandes compositores criavam especialmente para ela. Atuou no cinema e transitava do clássico ao popular. Suas músicas também falavam do homem do povo e de suas lutas. Morreu no dia 03 de fevereiro de 1975, vítima de um ataque cardíaco. Ouça sem olhar o relógio, permita que a música te envolva e me conte a experiência. Beijos de chocolate.

 https://www.youtube.com/watch?v=LH9PklSzkAY

segunda-feira, 31 de março de 2014

A MULHER QUE SE DANÇA


A Dança do Ventre, como é ocidentalmente conhecido o Raks el Shark, é mais que uma modalidade de dança, é, vista em sua profundidade, um modo de ver o mundo e de se colocar nele. Em uma sociedade fundada em preconceitos e estereótipos, que facilmente esvazia e arranca as raízes de qualquer construção cultural, a erotiza, a diminui, a transforma em exercício para agradar ao macho, em comportamento de vadia, isso é, na verdade, um contra-ataque de um imaginário misógino, eivado de mecanismos que neutralizem qualquer empoderamento feminino. Deve-se deixar a mulher alijada do próprio corpo, como se apenas o alugasse ao real proprietário – o homem.

Uma atividade artística que celebra a figura feminina em toda a sua complexidade e multiplicidade de formatos é uma ameaça e algo quase incompreensível que a mulher esteja se desenhando, se movimentando para si mesma, ficar bonita ela sempre faz para o outro, não é o que dizem?

Pois bem, a dança do ventre não é exercício de puteiro, não é venda de corpos, não é passatempo de desocupadas, dança do ventre é um redimensionamento de identidade. Treinadas que somos a obedecer, a fugir, a nos submetermos, a estarmos doentiamente insatisfeitas com nossos corpos, nos movimentarmos sendo bonitas agora e do jeito que somos, aprendendo a levantar os ombros e o olhar a não temer a exposição é resgatar a força feminina. Quem é mulher sabe que devemos andar nas ruas evitando contato com o olhar porque isso “autoriza” uma abordagem masculina, temos que tensionar o nosso corpo ao máximo enquanto caminhamos para não atrairmos comentários ofensivos, estamos sempre sendo obrigadas a nos travar inteiras, a não deixarmos nosso corpo se expressar porque estamos constantemente sob ameaça de assédio.

Estamos constantemente bombardeados com a concepção de que as mulheres são inimigas naturais e esse comportamento já é reforçado culturalmente já no nascimento das crianças. Não é segredo para ninguém, que, nos piores momentos de uma mulher, quem a socorre é uma outra mulher. Pode ser uma vizinha, uma professora, uma colega, uma desconhecida. Imagine se as mulheres resolverem se aliar? Que perigo, não é?
Os movimentos ondulatórios, os movimentos suaves, os movimentos de impacto, braços, face, tronco, pernas, quadris, tudo vai ofertando ao corpo um novo vocabulário, despertando o que foi soterrado, alimentando positivamente a imagem de si mesma e o vigor da imagem apresentada ao outro. 

Pense que a dança do ventre oferece beleza e possibilidades às áreas do estupro em nosso corpo. Nossos quadris são lindos e são nossos. Nossos seios são lindos e são nossos.  Entenda que não há desejo de lutar contra a violência para quem não se sente merecedor de respeito, de ser amado. Como demandar que a mulher pense o seu corpo no mundo se ela está sufocada por um imaginário em que a matéria dela está sempre a serviço de outros? O corpo nos apresenta ao mundo e ele é o templo de passagem de nossa expressão, de nosso conhecimento, de nossos medos, de nossa vitória. Que ele seja luz e não caverna povoada de monstros maus. 

Pense que um projeto sem divulgação além do facebook e de um site institucional atraiu mais de trezentas mulheres. Pense que elas estão em uma sala sem piso especial, sem espelho e, mesmo assim, com chuva, greve de ônibus, elas chegam. A arte é perigosa mesmo, né? Ela oferece outras espécies de espelho.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Fifi Abdo

Soraia Zaied no Brasil@Noites no Harém - Khan El Khalili 28Jul2013

ELA SABE QUE É MAJESTADE

Primeiro, ela levantou os olhos
Viu ao redor, se atreveu a empinar o queixo
Descobriu que o mundo é um descobrir
E esticou-se toda na imponência de quem entendeu
Depois, uma cor nos lábios
Um desenho nos olhos
E a face relaxa, sorri
Tem algo naquele corpo que se remexe
É vontade de ser feliz
Fica ali de quadril largadinho
Se namorando toda
Encantada com o que os seus sentidos encontram
No seu corpo casando-se com a música
Aí ganha um jeito de cabeça,
A mão fica alongando-se
Deixa a roupa mais vibrante
E anda diferente
Essa mulher descobriu os oitos
E o movimento da vida
Contrair, descontrair
Fluxo e parada
Essa garota, já sei o que ela tem
Já sei o seu segredo
Essa pessoa descobriu que é rainha
Abre os braços e manda
"Se afaste com sua energia ruim que eu estou aqui"
Ah, lindeza feminina
Você descobriu a dança das arábias
Está aí de pezinho irrequieto
Doida para fazer o quadril falar
Ah, rainha, passa, atravessa
Que o mundo melhora ao te ver dançar


domingo, 2 de março de 2014

A ALMA DANÇANTE

Mulher apequenada, encolhida não mão daquele
Mulher desfeminina sofrendo no jeito daquele
Figura, sombra de deusa e o rosto comido de incertezas
Tudo correntes daquele

Mas está ali, eu vejo,
Está ali a fúria e a força vindas do poder da mãe terra
Estão em seus cabelos os ventos parados
Estão em seus dedos as joias do futuro
Escondidas por aquele

Está nos olhos dela, o sol
Está no corpo dela, a lua
Está na boca dela, as águas

Tudo estático, escondido, entalado

Levanta  o queixo
Abre os seios ao tempo
E escancara-se inteira na construção da vida

Hora de diminuir aquele
Hora de pisar no sorriso mau daquele
Hora de ser mulher, viver mulher, encontrar-se mulher

Veja teus quadris em oitos, em curvas, em abismos de borboletas
Veja teus braços estendidos oferecendo as sementes
Veja teu busto ondulante sobre as águas, as caravelas e os homens

O teu olhar se inflama, estabelece a rota das conexões
Sai do canto, instala-se no centro, agiganta-se
Aquele, apavorado, aterrorizado, vê o seu poder diluindo-se
Perdendo-se em chicotes amolecidos

Teus dedos em flor
Teu tronco em cobras bailando
Tua língua em línguas divinas

Estás pronta!
Deusa, dança!