ÀS
MULHERES QUE DANÇAM COM A VIDA
Fernanda/
Inanna Queiroz
Até
aqui, vocês me trouxeram. Toda a convivência linda de mulheres
fortes, batalhadoras, que não desistem perante os tantos obstáculos
da vida. Só tenho a dizer: MUITO OBRIGADA.
Se
há algo que eu gostaria que ficasse como lembrança minha a vocês,
é que vocês entendam o enorme poder que têm nas mãos. O mundo
passa todo o tempo tentando nos fazer acreditar que somos frágeis,
inferiores, submissas, inimigas umas das outras. Quanta mentira! O
poder sempre foi feminino. Com o tempo, as heroínas foram
acreditando nas mentiras que lhes contaram e foram depositando as
armas no chão, perderam a altivez, a independência e foram sendo
transformadas em bonecas de carne. CHEGA!
Somos
MULHERES. E isso é uma bênção. Somos capazes de grandes feitos,
somos capazes de construir relacionamentos com igualdade, sem
dependência afetiva e sempre sabendo que não é estando com um
homem que seremos completas. Porque nós somos INTEIRAS, desde o
nosso nascimento. Por favor, peguem essas sementes que deposito em
suas mãos e levem para as suas avós, mães, filhas, amigas. Está
aqui, nesse embrião, uma sociedade melhor, mais humana, em que
nossas crianças não sejam atacadas, em que as mulheres não sintam
medo de andarem sozinhas.
Não
é fácil, muitas vezes, recebo ameaças de pessoas e instituições,
recebo punições, fico marcada como uma mancha. Claro que caio de
joelhos algumas vezes, cubro meu rosto com as mãos e as encho de
lágrimas. Chego a pensar que seria melhor ficar quietinha e deixar
que a maré me leve. Mas sempre me levanto. Lavo minha face e pego
novamente as minhas armas. Se tentam me derrubar é porque estou no
caminho certo. É porque eles têm pânico de que as mulheres
descubram do que são capazes. E há mulheres entre os homens, de tal
forma enfeitiçadas, que defendem o poder de quem as chicoteia. Essas
também precisam de nosso amor e nossa disposição.
A
dança é nosso instrumento poderoso. A dança do ventre devolve à
mulher o corpo que lhe roubaram. Impedida de usufruir do prazer de
ser ela mesma, de se tocar, de deixar seu corpo se expressar
livremente, ela vai ficando dura, rígida, silenciando seus
movimentos para que não a percebam, não a julguem, não a apontem
como vagabunda, desfrutável, mulher perdida. Perdidas estaremos se
deixarem dominar nossos corpos, nossas identidades, quem somos e quem
desejamos ser. E aí, os quadris, berço de energias intensas, é
acordado na dança, ele se movimenta sinuosamente, com vigor, calmo,
elétrico, exorcizando nossas dores. Os braços, sempre amarrados nas
obrigações, movem-se com leveza, contam histórias infinitas. O
queixo retoma sua altivez, o rosto endurecido sorri com suavidade, o
ventre abençoado gera novamente a mulher que o possui, a música te
envolve, e você quer voar, quer se amar, quer se pertencer inteira.
Nasce um amor tão puro sobre si mesma, que todo o seu corpo se
transforma em uma abraço em sua alma.
Dancem
sempre, com orgulho, não curvem a cabeça, não se desmereçam, não
aceitem nunca palavras que diminuam o seu valor. Você é linda
exatamente como você é. Teu corpo é magia que te pertence. Você é
inteligente, você é capaz de cair e levantar, você é e será tudo
o que você quiser.
Vocês
me trouxeram até aqui. Sigamos juntas.