Rádio da Innana

segunda-feira, 31 de março de 2014

A MULHER QUE SE DANÇA


A Dança do Ventre, como é ocidentalmente conhecido o Raks el Shark, é mais que uma modalidade de dança, é, vista em sua profundidade, um modo de ver o mundo e de se colocar nele. Em uma sociedade fundada em preconceitos e estereótipos, que facilmente esvazia e arranca as raízes de qualquer construção cultural, a erotiza, a diminui, a transforma em exercício para agradar ao macho, em comportamento de vadia, isso é, na verdade, um contra-ataque de um imaginário misógino, eivado de mecanismos que neutralizem qualquer empoderamento feminino. Deve-se deixar a mulher alijada do próprio corpo, como se apenas o alugasse ao real proprietário – o homem.

Uma atividade artística que celebra a figura feminina em toda a sua complexidade e multiplicidade de formatos é uma ameaça e algo quase incompreensível que a mulher esteja se desenhando, se movimentando para si mesma, ficar bonita ela sempre faz para o outro, não é o que dizem?

Pois bem, a dança do ventre não é exercício de puteiro, não é venda de corpos, não é passatempo de desocupadas, dança do ventre é um redimensionamento de identidade. Treinadas que somos a obedecer, a fugir, a nos submetermos, a estarmos doentiamente insatisfeitas com nossos corpos, nos movimentarmos sendo bonitas agora e do jeito que somos, aprendendo a levantar os ombros e o olhar a não temer a exposição é resgatar a força feminina. Quem é mulher sabe que devemos andar nas ruas evitando contato com o olhar porque isso “autoriza” uma abordagem masculina, temos que tensionar o nosso corpo ao máximo enquanto caminhamos para não atrairmos comentários ofensivos, estamos sempre sendo obrigadas a nos travar inteiras, a não deixarmos nosso corpo se expressar porque estamos constantemente sob ameaça de assédio.

Estamos constantemente bombardeados com a concepção de que as mulheres são inimigas naturais e esse comportamento já é reforçado culturalmente já no nascimento das crianças. Não é segredo para ninguém, que, nos piores momentos de uma mulher, quem a socorre é uma outra mulher. Pode ser uma vizinha, uma professora, uma colega, uma desconhecida. Imagine se as mulheres resolverem se aliar? Que perigo, não é?
Os movimentos ondulatórios, os movimentos suaves, os movimentos de impacto, braços, face, tronco, pernas, quadris, tudo vai ofertando ao corpo um novo vocabulário, despertando o que foi soterrado, alimentando positivamente a imagem de si mesma e o vigor da imagem apresentada ao outro. 

Pense que a dança do ventre oferece beleza e possibilidades às áreas do estupro em nosso corpo. Nossos quadris são lindos e são nossos. Nossos seios são lindos e são nossos.  Entenda que não há desejo de lutar contra a violência para quem não se sente merecedor de respeito, de ser amado. Como demandar que a mulher pense o seu corpo no mundo se ela está sufocada por um imaginário em que a matéria dela está sempre a serviço de outros? O corpo nos apresenta ao mundo e ele é o templo de passagem de nossa expressão, de nosso conhecimento, de nossos medos, de nossa vitória. Que ele seja luz e não caverna povoada de monstros maus. 

Pense que um projeto sem divulgação além do facebook e de um site institucional atraiu mais de trezentas mulheres. Pense que elas estão em uma sala sem piso especial, sem espelho e, mesmo assim, com chuva, greve de ônibus, elas chegam. A arte é perigosa mesmo, né? Ela oferece outras espécies de espelho.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Fifi Abdo

Soraia Zaied no Brasil@Noites no Harém - Khan El Khalili 28Jul2013

ELA SABE QUE É MAJESTADE

Primeiro, ela levantou os olhos
Viu ao redor, se atreveu a empinar o queixo
Descobriu que o mundo é um descobrir
E esticou-se toda na imponência de quem entendeu
Depois, uma cor nos lábios
Um desenho nos olhos
E a face relaxa, sorri
Tem algo naquele corpo que se remexe
É vontade de ser feliz
Fica ali de quadril largadinho
Se namorando toda
Encantada com o que os seus sentidos encontram
No seu corpo casando-se com a música
Aí ganha um jeito de cabeça,
A mão fica alongando-se
Deixa a roupa mais vibrante
E anda diferente
Essa mulher descobriu os oitos
E o movimento da vida
Contrair, descontrair
Fluxo e parada
Essa garota, já sei o que ela tem
Já sei o seu segredo
Essa pessoa descobriu que é rainha
Abre os braços e manda
"Se afaste com sua energia ruim que eu estou aqui"
Ah, lindeza feminina
Você descobriu a dança das arábias
Está aí de pezinho irrequieto
Doida para fazer o quadril falar
Ah, rainha, passa, atravessa
Que o mundo melhora ao te ver dançar


domingo, 2 de março de 2014

A ALMA DANÇANTE

Mulher apequenada, encolhida não mão daquele
Mulher desfeminina sofrendo no jeito daquele
Figura, sombra de deusa e o rosto comido de incertezas
Tudo correntes daquele

Mas está ali, eu vejo,
Está ali a fúria e a força vindas do poder da mãe terra
Estão em seus cabelos os ventos parados
Estão em seus dedos as joias do futuro
Escondidas por aquele

Está nos olhos dela, o sol
Está no corpo dela, a lua
Está na boca dela, as águas

Tudo estático, escondido, entalado

Levanta  o queixo
Abre os seios ao tempo
E escancara-se inteira na construção da vida

Hora de diminuir aquele
Hora de pisar no sorriso mau daquele
Hora de ser mulher, viver mulher, encontrar-se mulher

Veja teus quadris em oitos, em curvas, em abismos de borboletas
Veja teus braços estendidos oferecendo as sementes
Veja teu busto ondulante sobre as águas, as caravelas e os homens

O teu olhar se inflama, estabelece a rota das conexões
Sai do canto, instala-se no centro, agiganta-se
Aquele, apavorado, aterrorizado, vê o seu poder diluindo-se
Perdendo-se em chicotes amolecidos

Teus dedos em flor
Teu tronco em cobras bailando
Tua língua em línguas divinas

Estás pronta!
Deusa, dança!