Rádio da Innana

sábado, 14 de novembro de 2015

ÀS MULHERES QUE DANÇAM COM A VIDA


ÀS MULHERES QUE DANÇAM COM A VIDA
Fernanda/ Inanna Queiroz
Até aqui, vocês me trouxeram. Toda a convivência linda de mulheres fortes, batalhadoras, que não desistem perante os tantos obstáculos da vida. Só tenho a dizer: MUITO OBRIGADA.
Se há algo que eu gostaria que ficasse como lembrança minha a vocês, é que vocês entendam o enorme poder que têm nas mãos. O mundo passa todo o tempo tentando nos fazer acreditar que somos frágeis, inferiores, submissas, inimigas umas das outras. Quanta mentira! O poder sempre foi feminino. Com o tempo, as heroínas foram acreditando nas mentiras que lhes contaram e foram depositando as armas no chão, perderam a altivez, a independência e foram sendo transformadas em bonecas de carne. CHEGA!
Somos MULHERES. E isso é uma bênção. Somos capazes de grandes feitos, somos capazes de construir relacionamentos com igualdade, sem dependência afetiva e sempre sabendo que não é estando com um homem que seremos completas. Porque nós somos INTEIRAS, desde o nosso nascimento. Por favor, peguem essas sementes que deposito em suas mãos e levem para as suas avós, mães, filhas, amigas. Está aqui, nesse embrião, uma sociedade melhor, mais humana, em que nossas crianças não sejam atacadas, em que as mulheres não sintam medo de andarem sozinhas.
Não é fácil, muitas vezes, recebo ameaças de pessoas e instituições, recebo punições, fico marcada como uma mancha. Claro que caio de joelhos algumas vezes, cubro meu rosto com as mãos e as encho de lágrimas. Chego a pensar que seria melhor ficar quietinha e deixar que a maré me leve. Mas sempre me levanto. Lavo minha face e pego novamente as minhas armas. Se tentam me derrubar é porque estou no caminho certo. É porque eles têm pânico de que as mulheres descubram do que são capazes. E há mulheres entre os homens, de tal forma enfeitiçadas, que defendem o poder de quem as chicoteia. Essas também precisam de nosso amor e nossa disposição.
A dança é nosso instrumento poderoso. A dança do ventre devolve à mulher o corpo que lhe roubaram. Impedida de usufruir do prazer de ser ela mesma, de se tocar, de deixar seu corpo se expressar livremente, ela vai ficando dura, rígida, silenciando seus movimentos para que não a percebam, não a julguem, não a apontem como vagabunda, desfrutável, mulher perdida. Perdidas estaremos se deixarem dominar nossos corpos, nossas identidades, quem somos e quem desejamos ser. E aí, os quadris, berço de energias intensas, é acordado na dança, ele se movimenta sinuosamente, com vigor, calmo, elétrico, exorcizando nossas dores. Os braços, sempre amarrados nas obrigações, movem-se com leveza, contam histórias infinitas. O queixo retoma sua altivez, o rosto endurecido sorri com suavidade, o ventre abençoado gera novamente a mulher que o possui, a música te envolve, e você quer voar, quer se amar, quer se pertencer inteira. Nasce um amor tão puro sobre si mesma, que todo o seu corpo se transforma em uma abraço em sua alma.
Dancem sempre, com orgulho, não curvem a cabeça, não se desmereçam, não aceitem nunca palavras que diminuam o seu valor. Você é linda exatamente como você é. Teu corpo é magia que te pertence. Você é inteligente, você é capaz de cair e levantar, você é e será tudo o que você quiser.
Vocês me trouxeram até aqui. Sigamos juntas.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015


FIFI ABDO


Fifi Abdo, nasceu, provavelmente, em 26 de abril de 1953. Seu nome de nascimento é Atiaat. Seu pai era um policial e sua mãe uma dona de casa que cuidava dos cinco filhos que gerou e mais de outras seis crianças filhas do marido. Aos 12 anos, Fifi já havia decidido que seria dançarina. Fugiu de casa com uma vizinha que dançava em um grupo folclórico e aos treze anos já se apresentava. Alta para a idade e de porte elegante, era chamada de The Filly. Admirava Naima Akef, Samia Gamal, Tahia Carioca.
Tem o temperamento forte, assertivo, anda sempre acompanhada de guarda-costas e fica quase tanto tempo nos tribunais quanto nos palcos. É uma das mulheres mais ricas do Egito, possui mais de cinco mil figurinos, carros de luxo e apartamentos no Cairo. A polícia moralista está sempre em conflito com o comportamento livre dela, tanto na dança quanto na vida. Casou cinco vezes, o primeiro foi um casamento arranjado quando ela tinha quatorze anos, e tem três filhas. A mais nova foi adotada quando Naima Akef, quem primeiro adotou a menina, morreu quando ela ainda era um bebê.
Ainda muito jovem, dançava em casamentos e em hotéis cinco estrelas acompanhada por sua madrasta. Fifi afirma que nunca teve aulas com ninguém, que tudo o que aprendeu veio de si mesma e da observação. Estudou inglês por conta própria para usar em seus workshops pelo mundo. É uma bailarina que domina o improviso, não faz coreografia. Atuou em vários filmes, Dona de uma presença de palco cativante, que flerta e brinca com o público, é dona de um dos quadris mais famosos da dança do ventre. Afirma que usa as pernas para aumentar o seu shimmie, mas que ele nasce dos quadris e não das pernas. Seus tremidos são famosos, assim como o chute no bastão no solo para que el vá até seu ombro, pequenos saltos antes dos giros, pequenas paradas durante seus movimentos sinuosos, olha para sua barriga durante o shimmie, tem as mãos relaxadas e gosta de usar acessórios como a shisha durante suas performances. É acompanhada por uma banda de 25 a 40 músicos, mulheres dentre eles. Canta a música que está dançando. A garota baladi, que não perde o frescor da dança, afirma que “a dança é uma das coisas na minha vida que eu realmente amo, ela me deu tudo”. Apesar de sua fama internacional, sofreu duras críticas e represálias por ter alimentado famílias pobres, que não deveriam receber o dinheiro vindo de uma dançarina, foi condenada a três meses de prisão por movimentos “indecentes” em sua dança, por exemplo. É uma grande gestora de sua imagem de mulher forte e determinada, desde nas novelas que estrela, quando no mundo dos negócios.



terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

BREVE CARTA DE AMOR E DESPEDIDA


Essa é uma carta de amor e de despedida a todos os meus alunos da dança e do teatro....

Não vou mais continuar os projetos de dança e teatro no Campus Taguatinga Centro. E, ao contrário do que vão tentar fazer parecer, não é por covardia, incompetência ou preguiça. É por respeito. Respeito a mim mesma e aos meus alunos. Em uma gestão que considera que “para pobre, para quem não tinha nada, qualquer coisinha vale”, mesmo tendo verbas federais em caixa que ofereceriam estruturas de qualidade, não dá para fazer caridade com o que me custa muitas horas de estudo, criação, dedicação.
Em um campus sem janelas, sem anfiteatro, sem espaço, obtive apoio para colocar espelhos na maior sala dele. A vitória acaba aí porque minhas alunas e meus alunos tinham que concorrer o espaço com cadeiras entulhadas e deitar-se em um chão pisado o dia inteiro pelas turmas que se sucedem na sala porque, simplesmente, não há salas suficientes. Mesmo assim, peças de teatro autorais foram apresentadas ao púbico, as alunas dançaram em eventos de dança importantes, fizemos tudo o que um grupo de megaestrutura faria.
O que recebi dos meus alunos não pode ser quantificado. O que aprendi com eles, o que me fizeram evoluir como ser humano e artista está em meu coração. Eu não cheguei hoje na arte. Faço teatro desde a adolescência, não escrevi minhas peças ou meus livros baseada em poucas leituras e alguns sensos comuns. Eu estudo muito, pesquiso forte, me dedico, gasto meu salário em cursos e recursos. Várias vezes, coloquei dinheiro do meu orçamento familiar nos projetos. E essa miséria não é porque não havia recurso institucional para isso, mas porque eu estava sendo vítima de um processo de violência institucional que torna invisíveis os seus desafetos. Para a administração, as muitíssimas horas em criação, execução, preparo de um espetáculo, de uma coreografia não contabilizam na minha carga horária. Quem olha as estatísticas que escrevem, sou alguém que trabalha muito pouco.
Todavia, isso também é culpa do senso comum. Todo ser humano é apreciador artístico por excelência, mas não são todos os preparados em profundidade para produzir arte. Não possuem vivência, experiência, sensibilidade, respeito pela produção artística. Para a maioria, escrever uma peça de teatro de quarenta páginas corridas é só sentar e “deixar a inspiração falar”, que elaborar uma coreografia é só chupar vídeos do youtube e ficar assistindo. Não entende nada de trabalho corporal, de trabalho de linguagem, de história, de corpo, de história de referências. E aí vira um trabalho que “qualquer um” faz. Já me rebaixei muito para não ofender a mediocridade. Não me rebaixarei mais. O que eu faço não é para qualquer um. É para quem tem preparo e é obsessivo em estudar e aprender sem descanso.
Espero que os meus alunnos falem por mim e advoguem sobre o que realizamos no tempo em que ficamos juntos. Porque tudo foi por eles. A violência com que fui recebida nesse instituto, a humilhação de ser jogada em paredes sem janelas, em condições desumanas, os ataques de pânico que enfrento porque tenho que dar aula enquanto a academia que fica no andar de cima, despeja pesos, esteiras, pancadas no teto o dia todo. Enfrentei uma junta médica para ser removida para o Campus Samambaia. E foi uma conversa difícil porque nenhum dos médicos entendia porque a administração optou pelo caminho mais doloroso para um processo tão simples, não acreditavam que um campus, uma instituição de ensino estivesse confinada em um andar prensado entre uma academia de ginástica e um subsolo mofado, que os alunos fossem obrigados a ficar em um espaço desprovido de luz natural, sem espaço para estudo, interação, sem biblioteca decente. E quando contei a eles, vi, claro, bem desenhado, o quanto o ser humano vai se sujeitando à degradação sem perceber, vi o absurdo da minha situação, endividada com contas de farmácia, sem dormir, doente, vitimada por dores violentíssimas. E aí chorei, chorei tão violentamente quanto era violenta a minha situação. Foram três horas de choro ininterrupto.
Não posso mais ignorar o fato de que meus alunos poderiam ter um teatro, um ginásio, um linóleo, que não ficassem apenas a receber migalhas. Eu não mereço apenas migalhas. Talvez, se a remoção der certo, eu faça renascer esses projetos. Mas com muito cuidado, como quem cuida de orquídeas, como quem possui um santo graal na mão e sabe que ele se quebra. Porque a arte, para mim, não é autopromoção, não é brinca de pular na sala ou fingir que estamos trabalhando alguma linguagem. É sincera, é profunda. A arte me salvou várias vezes do suicídio. Não vou permitir que a manchem, que a prostituam, que invadam o meu espaço sagrado e estuprem todos os meus santos.
A violência institucional age por camadas sobrepostas, com vários agentes se costurando para destroçar o indivíduo até que ele endureça e perca a alma, até que a alma grite e o abrace como náufrago que vai levar junto para a morte o seu salvador. A instituição ganhou a guerra quando todas as esferas da vida do sujeito estejam contaminadas de merda. Eu recuso o esgoto.
Estava engasgada sem saber como dar essa notícia, à espera de alguma notícia que me permitise virar o jogo. Mas, hoje, pessoas a quem estendi a mão iniciaram uma campanha de apagamento e conspurcação da minha memória. Meus alunos têm a memória do meu trabalho. Que eles falem por mim.
Eu, hoje, estou deixando claro ao mundo que meu processo de subida começará. Não sei se batalhas jurídicas acontecerão, se os torturadores vão ganhar de mim. Mas estou disposta a perder as veias para manter a minha dignidade.