Essa é uma carta de
amor e de despedida a todos os meus alunos da dança e do teatro....
Não vou mais
continuar os projetos de dança e teatro no Campus Taguatinga Centro.
E, ao contrário do que vão tentar fazer parecer, não é por
covardia, incompetência ou preguiça. É por respeito. Respeito a
mim mesma e aos meus alunos. Em uma gestão que considera que “para
pobre, para quem não tinha nada, qualquer coisinha vale”, mesmo
tendo verbas federais em caixa que ofereceriam estruturas de
qualidade, não dá para fazer caridade com o que me custa muitas
horas de estudo, criação, dedicação.
Em um campus sem
janelas, sem anfiteatro, sem espaço, obtive apoio para colocar
espelhos na maior sala dele. A vitória acaba aí porque minhas
alunas e meus alunos tinham que concorrer o espaço com cadeiras
entulhadas e deitar-se em um chão pisado o dia inteiro pelas turmas
que se sucedem na sala porque, simplesmente, não há salas
suficientes. Mesmo assim, peças de teatro autorais foram
apresentadas ao púbico, as alunas dançaram em eventos de dança
importantes, fizemos tudo o que um grupo de megaestrutura faria.
O que recebi dos
meus alunos não pode ser quantificado. O que aprendi com eles, o que
me fizeram evoluir como ser humano e artista está em meu coração.
Eu não cheguei hoje na arte. Faço teatro desde a adolescência, não
escrevi minhas peças ou meus livros baseada em poucas leituras e
alguns sensos comuns. Eu estudo muito, pesquiso forte, me dedico,
gasto meu salário em cursos e recursos. Várias vezes, coloquei
dinheiro do meu orçamento familiar nos projetos. E essa miséria não
é porque não havia recurso institucional para isso, mas porque eu
estava sendo vítima de um processo de violência institucional que
torna invisíveis os seus desafetos. Para a administração, as
muitíssimas horas em criação, execução, preparo de um
espetáculo, de uma coreografia não contabilizam na minha carga
horária. Quem olha as estatísticas que escrevem, sou alguém que
trabalha muito pouco.
Todavia, isso
também é culpa do senso comum. Todo ser humano é apreciador
artístico por excelência, mas não são todos os preparados em
profundidade para produzir arte. Não possuem vivência, experiência,
sensibilidade, respeito pela produção artística. Para a maioria,
escrever uma peça de teatro de quarenta páginas corridas é só
sentar e “deixar a inspiração falar”, que elaborar uma
coreografia é só chupar vídeos do youtube e ficar assistindo. Não
entende nada de trabalho corporal, de trabalho de linguagem, de
história, de corpo, de história de referências. E aí vira um
trabalho que “qualquer um” faz. Já me rebaixei muito para não
ofender a mediocridade. Não me rebaixarei mais. O que eu faço não
é para qualquer um. É para quem tem preparo e é obsessivo em
estudar e aprender sem descanso.
Espero que os meus
alunnos falem por mim e advoguem sobre o que realizamos no tempo em
que ficamos juntos. Porque tudo foi por eles. A violência com que
fui recebida nesse instituto, a humilhação de ser jogada em paredes
sem janelas, em condições desumanas, os ataques de pânico que
enfrento porque tenho que dar aula enquanto a academia que fica no
andar de cima, despeja pesos, esteiras, pancadas no teto o dia todo.
Enfrentei uma junta médica para ser removida para o Campus
Samambaia. E foi uma conversa difícil porque nenhum dos médicos
entendia porque a administração optou pelo caminho mais doloroso
para um processo tão simples, não acreditavam que um campus, uma
instituição de ensino estivesse confinada em um andar prensado
entre uma academia de ginástica e um subsolo mofado, que os alunos
fossem obrigados a ficar em um espaço desprovido de luz natural, sem
espaço para estudo, interação, sem biblioteca decente. E quando
contei a eles, vi, claro, bem desenhado, o quanto o ser humano vai se
sujeitando à degradação sem perceber, vi o absurdo da minha
situação, endividada com contas de farmácia, sem dormir, doente,
vitimada por dores violentíssimas. E aí chorei, chorei tão
violentamente quanto era violenta a minha situação. Foram três
horas de choro ininterrupto.
Não posso mais
ignorar o fato de que meus alunos poderiam ter um teatro, um ginásio,
um linóleo, que não ficassem apenas a receber migalhas. Eu não
mereço apenas migalhas. Talvez, se a remoção der certo, eu faça
renascer esses projetos. Mas com muito cuidado, como quem cuida de
orquídeas, como quem possui um santo graal na mão e sabe que ele se
quebra. Porque a arte, para mim, não é autopromoção, não é
brinca de pular na sala ou fingir que estamos trabalhando alguma
linguagem. É sincera, é profunda. A arte me salvou várias vezes do
suicídio. Não vou permitir que a manchem, que a prostituam, que
invadam o meu espaço sagrado e estuprem todos os meus santos.
A violência
institucional age por camadas sobrepostas, com vários agentes se
costurando para destroçar o indivíduo até que ele endureça e
perca a alma, até que a alma grite e o abrace como náufrago que vai
levar junto para a morte o seu salvador. A instituição ganhou a
guerra quando todas as esferas da vida do sujeito estejam
contaminadas de merda. Eu recuso o esgoto.
Estava engasgada sem
saber como dar essa notícia, à espera de alguma notícia que me
permitise virar o jogo. Mas, hoje, pessoas a quem estendi a mão
iniciaram uma campanha de apagamento e conspurcação da minha
memória. Meus alunos têm a memória do meu trabalho. Que eles falem
por mim.
Eu, hoje, estou
deixando claro ao mundo que meu processo de subida começará. Não
sei se batalhas jurídicas acontecerão, se os torturadores vão
ganhar de mim. Mas estou disposta a perder as veias para manter a
minha dignidade.
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