Rádio da Innana

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

BREVE CARTA DE AMOR E DESPEDIDA


Essa é uma carta de amor e de despedida a todos os meus alunos da dança e do teatro....

Não vou mais continuar os projetos de dança e teatro no Campus Taguatinga Centro. E, ao contrário do que vão tentar fazer parecer, não é por covardia, incompetência ou preguiça. É por respeito. Respeito a mim mesma e aos meus alunos. Em uma gestão que considera que “para pobre, para quem não tinha nada, qualquer coisinha vale”, mesmo tendo verbas federais em caixa que ofereceriam estruturas de qualidade, não dá para fazer caridade com o que me custa muitas horas de estudo, criação, dedicação.
Em um campus sem janelas, sem anfiteatro, sem espaço, obtive apoio para colocar espelhos na maior sala dele. A vitória acaba aí porque minhas alunas e meus alunos tinham que concorrer o espaço com cadeiras entulhadas e deitar-se em um chão pisado o dia inteiro pelas turmas que se sucedem na sala porque, simplesmente, não há salas suficientes. Mesmo assim, peças de teatro autorais foram apresentadas ao púbico, as alunas dançaram em eventos de dança importantes, fizemos tudo o que um grupo de megaestrutura faria.
O que recebi dos meus alunos não pode ser quantificado. O que aprendi com eles, o que me fizeram evoluir como ser humano e artista está em meu coração. Eu não cheguei hoje na arte. Faço teatro desde a adolescência, não escrevi minhas peças ou meus livros baseada em poucas leituras e alguns sensos comuns. Eu estudo muito, pesquiso forte, me dedico, gasto meu salário em cursos e recursos. Várias vezes, coloquei dinheiro do meu orçamento familiar nos projetos. E essa miséria não é porque não havia recurso institucional para isso, mas porque eu estava sendo vítima de um processo de violência institucional que torna invisíveis os seus desafetos. Para a administração, as muitíssimas horas em criação, execução, preparo de um espetáculo, de uma coreografia não contabilizam na minha carga horária. Quem olha as estatísticas que escrevem, sou alguém que trabalha muito pouco.
Todavia, isso também é culpa do senso comum. Todo ser humano é apreciador artístico por excelência, mas não são todos os preparados em profundidade para produzir arte. Não possuem vivência, experiência, sensibilidade, respeito pela produção artística. Para a maioria, escrever uma peça de teatro de quarenta páginas corridas é só sentar e “deixar a inspiração falar”, que elaborar uma coreografia é só chupar vídeos do youtube e ficar assistindo. Não entende nada de trabalho corporal, de trabalho de linguagem, de história, de corpo, de história de referências. E aí vira um trabalho que “qualquer um” faz. Já me rebaixei muito para não ofender a mediocridade. Não me rebaixarei mais. O que eu faço não é para qualquer um. É para quem tem preparo e é obsessivo em estudar e aprender sem descanso.
Espero que os meus alunnos falem por mim e advoguem sobre o que realizamos no tempo em que ficamos juntos. Porque tudo foi por eles. A violência com que fui recebida nesse instituto, a humilhação de ser jogada em paredes sem janelas, em condições desumanas, os ataques de pânico que enfrento porque tenho que dar aula enquanto a academia que fica no andar de cima, despeja pesos, esteiras, pancadas no teto o dia todo. Enfrentei uma junta médica para ser removida para o Campus Samambaia. E foi uma conversa difícil porque nenhum dos médicos entendia porque a administração optou pelo caminho mais doloroso para um processo tão simples, não acreditavam que um campus, uma instituição de ensino estivesse confinada em um andar prensado entre uma academia de ginástica e um subsolo mofado, que os alunos fossem obrigados a ficar em um espaço desprovido de luz natural, sem espaço para estudo, interação, sem biblioteca decente. E quando contei a eles, vi, claro, bem desenhado, o quanto o ser humano vai se sujeitando à degradação sem perceber, vi o absurdo da minha situação, endividada com contas de farmácia, sem dormir, doente, vitimada por dores violentíssimas. E aí chorei, chorei tão violentamente quanto era violenta a minha situação. Foram três horas de choro ininterrupto.
Não posso mais ignorar o fato de que meus alunos poderiam ter um teatro, um ginásio, um linóleo, que não ficassem apenas a receber migalhas. Eu não mereço apenas migalhas. Talvez, se a remoção der certo, eu faça renascer esses projetos. Mas com muito cuidado, como quem cuida de orquídeas, como quem possui um santo graal na mão e sabe que ele se quebra. Porque a arte, para mim, não é autopromoção, não é brinca de pular na sala ou fingir que estamos trabalhando alguma linguagem. É sincera, é profunda. A arte me salvou várias vezes do suicídio. Não vou permitir que a manchem, que a prostituam, que invadam o meu espaço sagrado e estuprem todos os meus santos.
A violência institucional age por camadas sobrepostas, com vários agentes se costurando para destroçar o indivíduo até que ele endureça e perca a alma, até que a alma grite e o abrace como náufrago que vai levar junto para a morte o seu salvador. A instituição ganhou a guerra quando todas as esferas da vida do sujeito estejam contaminadas de merda. Eu recuso o esgoto.
Estava engasgada sem saber como dar essa notícia, à espera de alguma notícia que me permitise virar o jogo. Mas, hoje, pessoas a quem estendi a mão iniciaram uma campanha de apagamento e conspurcação da minha memória. Meus alunos têm a memória do meu trabalho. Que eles falem por mim.
Eu, hoje, estou deixando claro ao mundo que meu processo de subida começará. Não sei se batalhas jurídicas acontecerão, se os torturadores vão ganhar de mim. Mas estou disposta a perder as veias para manter a minha dignidade.

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