Rádio da Innana

segunda-feira, 26 de maio de 2014

MONAH SAID


Nascida Monah Ibrahim Wafa, no Egito, fugiu para o Líbano aos treze anos para atuar profissionalmente na dança e para fugir de seu pai, que queria matá-la por envergonhar a família sendo bailarina. Alertada pela mãe, fugiu. Cinco anos depois, em 1975, retornava ao Cairo já como bailarina reconhecida no Oriente. 

Tahia Carioca a apelidou de princesa do Raks Shark. Sempre buscava os melhores músicos para suas apresentações e gostava de se apresentar com grandes orquestras. Sua leitura musical era tão precisa que, por vezes, ela comandava os músicos e, em outras, os músicos a conduziam. Foi estrela de sete filmes. Seu estilo preciso, tipicamente egípcio, de movimentos contidos, braços liricamente trabalhados e sua ênfase em movimentos de contenção pélvica apresentaram ao universo da dança novas leituras. Sua apreciação dos humores da música apresentavam à plateia o amor pela dança, seus movimentos fluidos, bem marcados, resultado de grande controle corporal, evidenciam seu grande domínio técnico. 

É uma bailarina alta, de 1,75 m. Uma das suas assinaturas é parar em alguns momentos para enfatizar um movimento. Em uma das aulas de Monah, ela ensinava, “não comece o círculo mostrando seu estômago” , “traga seu interior para fora”, “ame a si mesma que os outros a amarão”. Ouviu, aos treze anos, quando dançava em um clube chamado Triang a Go Go, foi chamada por Anwar Amar, que lhe disse que deveria se tornar bailarina profissional, pois era bonita e dançava muito bem. Leila Murad, uma grande cantora da época, estava ao lado dele e reforçou “você deve dançar, você tem um aparência artística. E nunca se case, dedique-se a sua dança.” Casou-se sete vezes e seu primeiro marido era filho do presidente do Líbano. Questionada pela quantidade de casamentos, responde “Eu gosto de homens. Por isso mudo tanto”. Não conseguiu ter filhos.

Uma de suas frases, “Se você é uma boa bailarina, se você tem um bom estilo, você voa como um Concorde. Você não tem que se sentar no chão, comer areia ou pedras. Eu sou um Concorde”. Dançava na meia ponta, gostava de marcar as contenções e de marcar os shimmies com a perna de trás e marcava esse movimento com uma contenção de abdômen. Seus figurinos luxuosos são referência até hoje. Quanto à carreira de bailarina, dizia que não gostava de dançar noite, após noite, ano após ano, que gostava de dar pausas, para que a dança não se transformasse um fardo. Foi uma das treinadoras das bailarinas de Bellydance Superstars.


quinta-feira, 22 de maio de 2014

NAGWA FOUAD



Awatef Mohammed El Agamy, conhecida comoNajwa Fouad, nasceu em 06 de janeiro de 1939, filha de pai egípcio e mãe palestina, começou a dançar aos 14 anos em festas tradicionais. A família mudou-se para o Cairo depois que ela percebeu que poderia dançar profissionalmente. Dançou em pequenos clubes antes de chegar às grandes casas de espetáculo. 

Era elogiada pela sensibilidade, delicadeza e técnica. Estudou vários estilos ocidentais como ballet, jazz, sapateado, flamenco, tango além de aprofundar-se nas danças orientais. Brilhava tanto nas fusões que realizava quanto nos estilos clássicos e tradicionais. 

Como Hossam Hamzy afirma, era uma bailarina que mostrava a música em 3D, que personificava a música produzida pela orquestra. Foi casada com Ahmad Fuad Hassam, produtor e viloinista que a convenceu a fazer performance no palco de City Lights, onde grandes nomes da música haviam se apresentado. Como ela mesma afirmou: “Hassam era dezessete anos mais velho que eu, mas eu precisava dele, ele desenvolveu meus talentos amadores”. A união durou seis anos e dissolveu-se porque Nagwa não desejava filhos. Atuou em muitos filmes, como Sharei El Hob (The Street of Love). Para ela, Mohammed Abdel Wahab compôs Amar Abaatasher. (a lua de 14 de julho, a face mais bonita). Quando se aposentou, dedicou-se ao cinema integralmente. De personalidade forte e extrovertida, alguns artigos afirmam que Nagwa não apreciava suas contemporâneas Dina, Suheir Zaki, Tahya Carioca e Samia Gamal. Em uma entrevista, chegou a afirmar que Dina não prendia sua atenção. Nas palavras de Nagwa, “essa dança não é apenas sacudir sua cintura e sua bunda”.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Soheir Zaki (green bedlah) Pt 1

SUHEIR ZAKI



Soheir Zaki nasceu na década de 40 em Mansoura, no Egito, em uma época em que mudanças sociais estavam acontecendo, casamentos urbanos se tornavam cada vez menos segregadores e um convívio maior entre extratos sociais aconteciam, os Wahalim, grupos liderados por uma mulher, a Usta, começaram a se dispersar e a fazer com que as bailarinas se encarregassem de promover suas carreiras. Soheir, aos nove anos, já animava festas de casamentos de amigos e familiares. Mudando-se, ainda muito jovem, para Alexandria, e, sem seguida, para o Cairo, onde começou a dançar em pequenos e grandes clubes, foi reprovada em um teste para apresentadora de televisão, mas construiu uma sólida e grandiosa carreira como bailarina e nos filmes em que atuou. Aprendeu a dançar em um autodidatismo gerado pelas músicas que ouvia pelo rádio e inspirada por bailarinas como Samia Gamal e Tahia Carioca. Foi a primeira bailarina oriental a dançar uma música da reverenciada Oum Kanthoum. Arriscou-se e foi elogiada pela própria cantora. 

O terceiro presidente do Egito, Mohammed Anwar Al Sadat afirmou que Soheir Zaki é a Oum Kanthoum da dança, enquanto ela canta com a voz, você canta com seu corpo” Era uma bailarina de estilo preciso delicado, que não se valia de artefatos ou de outras bailarinas, apenas ela e sua orquestra. A música Shik Shak Shok foi escrita especialmente para ela. Ao contrário da maioria das bailarinas de sua época, ela não contratava coreógrafos para auxiliá-la, preferia ser a música, deixar que a própria música guiasse seu corpo.
Na década de 90, o declínio econômico e uma onda de conservadorismo quebraram a época de ouro da dança e Soheir aposentou-se em maio de 2001 e ficou a ensinar centenas de bailarinas.

Uma de suas frases mais fortes “Elas (as bailarinas ocidentais de sua época) nunca atingirão o nível das bailarinas egípcias. Elas não possuem o espírito vivaz, elas não têm o senso de humor, elas não têm o ouvido musical. Elas somente executam os passos que aprendem 1, 2, 3, 4. Mas elas não têm o espírito.” Apesar da controversa afirmação, fica o ensinamento de que a música deve vibrar dentro da bailarina para que a dança tenha alma.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

DANÇA DO VENTRE E FIBROMIALGIA

O diagnóstico de fibromialgia é uma conjunto de desenganos, desrespeitos e desencontro de informações. Até o paciente alcançar essa constatação pela medicina, ele já passou pelo ortopedista, neurologista, psiquiatra, constrangimento familiar, acusações de preguiça e mania de doença. Porque a fibromialgia não aparece no raio-x, no exame de sangue, na tomografia. E, mesmo assim, é uma dor viajante, que deixa suas pegadas fincadas em todo o corpo e que acaba levando à exaustão pela constância do sofrimento e do sono não-reparador. Dizer se a depressão é uma consequência da fibromialgia ou a fibromialgia é uma consequência da depressão, isso ninguém conseguiu responder.

Após um exame no próprio consultório do médico, em que ele irá tocar os chamados pontos de dor, que são dezoito, a paciente pode receber o diagnóstico de fibromialgia se onze deles doerem ao serem tocados. Eu tenho os dezoito e acredito ter inventado outros. Não é uma dor localizada, é o corpo todo doendo difusamente, e, quando a dor é grande, a agonia que dá é como se tivessem nos aplicado um opiáceo, como se estivéssemos profetizando grandes desgraças. E não se dorme ou se dorme muito mal.

Os tratamentos são múltiplos e geralmente integram atividade física, medicação e acompanhamento psicológico. Eu já fiz hidroginástica, hidroterapia, acupuntura, massagem, pilates, natação, tomei lyrica 150mg três vezes ao dia, cymbalta 60mg duas vezes ao dia, passei pelos rivotril, cloridratos da vida... Até que um dia, resolvi dançar. Garanto que eu não me levanto saltitante e vou para a aula de dança, eu me arrasto da minha dor até lá, mas quando a aula começa, não sinto dor, tristeza e mesmo algumas horas depois, ainda sinto bem-estar.

Não vou mentir que a dança do ventre e o balé zeraram minhas dores, mas eles são o melhor tratamento de todos os que experimentei, e, deles, os efeitos colaterais são um corpo mais saudável, forte, flexível, bem diferente dos estragos que os outros remédios provocam. Comecei a dança do ventre há mais de seis anos. Interrompi esse percurso várias vezes, sendo derrotada pelo desânimo e pela dor. Há três anos, resolvi levar a sério, parar de pagar mensalidades e desaparecer das aulas. Fiz dança contemporânea, comecei a fazer balé em seguida e não faltei mais à minha dança do ventre.

Coloquei como tão importante quanto meu trabalho  e a educação dos meus filhos. E fui percebendo que, quanto mais tempo de dança eu fazia, mais minha qualidade de vida aumentava. Alcancei resistência, fôlego, e minha percepção positiva das coisas aumentou. Sinto muitas dores, mas, agora, é como seu estivesse em alto-mar sabendo o endereço de cada ilha onde tem água e areia morna para descansar. Sempre que chego das aulas, estou em paz, cheia de energia e sem dor alguma. Mesmo depois de alongamentos punk da aula de balé.

Finalmente, aos 36 anos, consegui achar bonito o que está no espelho, consegui me enxergar mulher e uma satisfação com meu corpo que nunca pensei em atingir. Não mudaria nada, nem minha pele da barriga toda soltinha depois de duas gravidezes em que engordei mais de vinte quilos em cada uma. A dança do ventre traz o prazer do movimento, me coloca em movimentos que meu corpo alcança, tenho prazer enorme nos sinuosos, gosto de sentir meus músculos sendo trabalhados e atuando em função da dança. O que mais me exige treinamento são os shimmies, tremidos, porque eles demandam pernas e quadril e, por vezes, a fibromialgia provoca uma tensão tão grande em todo corpo que os movimentos todos se travam, preciso me aquecer nos sinuosos, me alongar e só aí alcançar esses movimentos.
Acho lindo o jogo com o tronco, os cambrets, mas tenho três hérnias na coluna que me exigem cuidado. Todavia, sinceramente, não são elas que me seguram na extensão desses passos, são os músculos que se retesam e seguram. Nessas horas, melhor aquecer tudo de novo. Todo o corpo fica em estado de tensão por causa das dores, por isso preciso tanto me alongar e por isso preciso tanto do balé para fortalecer minha musculatura de forma ainda mais acentuada.

Houve um dia em especial, que cheguei em casa aos prantos, porque nenhuma das sequências que planejei fazer ficaram boas porque meu corpo se recolheu a si mesmo e me deixou à deriva da dança que tanto amo. Pensei em desistir e me entregar. Para que insistir em algo onde eu nunca alcançaria a excelência, em que estaria sempre estagnada na mediocridade. Ainda bem que tenho amigos e professoras que me empurraram, me abraçaram e me olharam com  a generosidade que eu mesma era incapaz de me dar.

E continuei, me obriguei, porque, para um corpo fraco, há que se ter um espírito forte. E cheguei a uma conclusão que funcionou como um bálsamo milagroso, uma anestésico para a dor, uma cura mental e física. Eu estava olhando tudo errado. Eu estava com o espírito perverso da competição ao invés da evolução. E, finalmente, entendi, que meu corpo é muito maior que o destino a ele dado. Entendi que meu corpo é meu amigo, que quando um movimento foge de seu alcance, ele me dá outro tão bonito quanto. Entendi que meu corpo não é incapaz. Meu corpo é um universo colorido cheio de novas entradas e saídas e todas elas podem me levar a danças ainda não feitas, a histórias que quero contar, a um mundo onde é possível não ser definido pela dor. Dançar é uma oração que faço todos os dias. Com a dança, enfeito o meu altar mais valioso, o meu corpo.

Hoje, sou professora de dança do ventre, porque eu quero oferecer às mulheres o espelho que elas merecem. Que elas se fortaleçam, não para competirem entre si, mas para crescerem juntas, mudarem o mundo com sua sinergia. Obrigada, fibromialgia, sem você, eu não teria me dedicado tanto. Sem a minha asinha quebrada, eu não teria voado tanto...