Rádio da Innana

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Nós, os sem ninho


Disseram que teríamos casa para ensinar
E nos deixaram sem teto
Disseram que o bom professor dá aula em qualquer lugar
E se esqueceram de que o professor não é a vida
Não precisa o médico de seus equipamentos?
Não precisa o engenheiro de seu concreto?
Do que precisaria o professor além de suas palavras?
De que precisariam os construtores do saber além de seus corpos?
De um ninho
Assim como o pássaro precisa usar toda sua tecnologia para proteger os filhotes
Não é o saber algo a ser nutrido para que cresça sem limites?
O lugar dos educadores é geográfico e é infinito
São espaços de tijolos agasalhando o imensurável desenvolver das sementes humanas
Disseram que deveríamos fazer a pedagogia da miséria
Enquanto recebiam as brisas frescas em seus castelos
Disseram que a educação não precisa de muito alimento
Enquanto arrotavam seus estômagos entupidos de iguarias caras
Disseram que a culpa da miséria é do miserável
E se esqueceram que a culpa do oprimido é o opressor.
Disseram, disseram muitas coisas
E suas palavras soltas em ventanias
Aspergiram venenos e discórdias
Colocando espelhos em espelhos
Até que seus atos não pudessem ser observados
E fizeram muito mais com sua pedagogia do não
Mas, aqui, empunhando esse conhecimento gerado pelos recursos dos homens,
da natureza, e do pensar ininterrupto
Daqui, de onde perduram os ideais
Eu vejo o lar dos que ensinam
É uma casa de enormes braços e janelas
É um ninho em que são nutridos seres humanos de muitos caminhos
Daqui, de onde a luta pela justiça se mostra desanimadora,
De onde irmão atira contra irmão
Daqui, brota a força vital do ensino
O inconformar-se para construir
Disseram que é a vontade que faz as coisas se acertarem
E apresentaram pratos vazios para que os enchêssemos de comida apenas com nossa fome
Disseram que o bom educador tem uma estranha mágica
A mágica de ser Deus, com a palavra, gerar a matéria
E o educador disse “que se façam os livros”. E nenhuma folha brotou
E o educador disse “que se façam os equipamentos”. E apenas o vento vazio soprou
Que nos desculpem os reis encantados por reinados
Mas não somos Deus
Somos apenas seres pequenos e mortais
Sem poder de assinatura
Sem o cetro de governar
Nosso poder é pouco para os seus papéis
Ele é um gigante quando toca a vida das pessoas
E, ao apresentar-lhes que atrás dos castelos moram homens comuns afogados em autocontemplação,
Verão que as muralhas são apenas papel fino
Disseram que não somos importantes
Mas nós não ouvimos
E queremos nosso campus para cultivo
E ele se encherá de música, sonhos, ações, reações
Queremos vida em nosso cultivo
E nós diremos
Isso é terra de vida
Não é um túmulo
Aqui, serão tecidas delicadas existências
Perenes resistências
Queremos o campus para o trabalho e para a alegria
Porque nas palavras que aqui temos
Está o coração do futuro

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