Rádio da Innana

segunda-feira, 12 de maio de 2014

DANÇA DO VENTRE E FIBROMIALGIA

O diagnóstico de fibromialgia é uma conjunto de desenganos, desrespeitos e desencontro de informações. Até o paciente alcançar essa constatação pela medicina, ele já passou pelo ortopedista, neurologista, psiquiatra, constrangimento familiar, acusações de preguiça e mania de doença. Porque a fibromialgia não aparece no raio-x, no exame de sangue, na tomografia. E, mesmo assim, é uma dor viajante, que deixa suas pegadas fincadas em todo o corpo e que acaba levando à exaustão pela constância do sofrimento e do sono não-reparador. Dizer se a depressão é uma consequência da fibromialgia ou a fibromialgia é uma consequência da depressão, isso ninguém conseguiu responder.

Após um exame no próprio consultório do médico, em que ele irá tocar os chamados pontos de dor, que são dezoito, a paciente pode receber o diagnóstico de fibromialgia se onze deles doerem ao serem tocados. Eu tenho os dezoito e acredito ter inventado outros. Não é uma dor localizada, é o corpo todo doendo difusamente, e, quando a dor é grande, a agonia que dá é como se tivessem nos aplicado um opiáceo, como se estivéssemos profetizando grandes desgraças. E não se dorme ou se dorme muito mal.

Os tratamentos são múltiplos e geralmente integram atividade física, medicação e acompanhamento psicológico. Eu já fiz hidroginástica, hidroterapia, acupuntura, massagem, pilates, natação, tomei lyrica 150mg três vezes ao dia, cymbalta 60mg duas vezes ao dia, passei pelos rivotril, cloridratos da vida... Até que um dia, resolvi dançar. Garanto que eu não me levanto saltitante e vou para a aula de dança, eu me arrasto da minha dor até lá, mas quando a aula começa, não sinto dor, tristeza e mesmo algumas horas depois, ainda sinto bem-estar.

Não vou mentir que a dança do ventre e o balé zeraram minhas dores, mas eles são o melhor tratamento de todos os que experimentei, e, deles, os efeitos colaterais são um corpo mais saudável, forte, flexível, bem diferente dos estragos que os outros remédios provocam. Comecei a dança do ventre há mais de seis anos. Interrompi esse percurso várias vezes, sendo derrotada pelo desânimo e pela dor. Há três anos, resolvi levar a sério, parar de pagar mensalidades e desaparecer das aulas. Fiz dança contemporânea, comecei a fazer balé em seguida e não faltei mais à minha dança do ventre.

Coloquei como tão importante quanto meu trabalho  e a educação dos meus filhos. E fui percebendo que, quanto mais tempo de dança eu fazia, mais minha qualidade de vida aumentava. Alcancei resistência, fôlego, e minha percepção positiva das coisas aumentou. Sinto muitas dores, mas, agora, é como seu estivesse em alto-mar sabendo o endereço de cada ilha onde tem água e areia morna para descansar. Sempre que chego das aulas, estou em paz, cheia de energia e sem dor alguma. Mesmo depois de alongamentos punk da aula de balé.

Finalmente, aos 36 anos, consegui achar bonito o que está no espelho, consegui me enxergar mulher e uma satisfação com meu corpo que nunca pensei em atingir. Não mudaria nada, nem minha pele da barriga toda soltinha depois de duas gravidezes em que engordei mais de vinte quilos em cada uma. A dança do ventre traz o prazer do movimento, me coloca em movimentos que meu corpo alcança, tenho prazer enorme nos sinuosos, gosto de sentir meus músculos sendo trabalhados e atuando em função da dança. O que mais me exige treinamento são os shimmies, tremidos, porque eles demandam pernas e quadril e, por vezes, a fibromialgia provoca uma tensão tão grande em todo corpo que os movimentos todos se travam, preciso me aquecer nos sinuosos, me alongar e só aí alcançar esses movimentos.
Acho lindo o jogo com o tronco, os cambrets, mas tenho três hérnias na coluna que me exigem cuidado. Todavia, sinceramente, não são elas que me seguram na extensão desses passos, são os músculos que se retesam e seguram. Nessas horas, melhor aquecer tudo de novo. Todo o corpo fica em estado de tensão por causa das dores, por isso preciso tanto me alongar e por isso preciso tanto do balé para fortalecer minha musculatura de forma ainda mais acentuada.

Houve um dia em especial, que cheguei em casa aos prantos, porque nenhuma das sequências que planejei fazer ficaram boas porque meu corpo se recolheu a si mesmo e me deixou à deriva da dança que tanto amo. Pensei em desistir e me entregar. Para que insistir em algo onde eu nunca alcançaria a excelência, em que estaria sempre estagnada na mediocridade. Ainda bem que tenho amigos e professoras que me empurraram, me abraçaram e me olharam com  a generosidade que eu mesma era incapaz de me dar.

E continuei, me obriguei, porque, para um corpo fraco, há que se ter um espírito forte. E cheguei a uma conclusão que funcionou como um bálsamo milagroso, uma anestésico para a dor, uma cura mental e física. Eu estava olhando tudo errado. Eu estava com o espírito perverso da competição ao invés da evolução. E, finalmente, entendi, que meu corpo é muito maior que o destino a ele dado. Entendi que meu corpo é meu amigo, que quando um movimento foge de seu alcance, ele me dá outro tão bonito quanto. Entendi que meu corpo não é incapaz. Meu corpo é um universo colorido cheio de novas entradas e saídas e todas elas podem me levar a danças ainda não feitas, a histórias que quero contar, a um mundo onde é possível não ser definido pela dor. Dançar é uma oração que faço todos os dias. Com a dança, enfeito o meu altar mais valioso, o meu corpo.

Hoje, sou professora de dança do ventre, porque eu quero oferecer às mulheres o espelho que elas merecem. Que elas se fortaleçam, não para competirem entre si, mas para crescerem juntas, mudarem o mundo com sua sinergia. Obrigada, fibromialgia, sem você, eu não teria me dedicado tanto. Sem a minha asinha quebrada, eu não teria voado tanto...

2 comentários:

  1. Fiquei impressionada com o texto, quem imaginaria?
    Você batalhou muito com esse problema de saúde, conheço os sintomas e conheço pessoas que precisam tomar morfina de tanta dor, parabéns pela superação.

    Era esse o texto que eu precisava ler, as vezes pensamos que só temos problemas se eles forem visiveis ou externos, mas, quando o problema está dentro de nós e só nós conseguimos vêr é muito mais dificil. Acredito cada vez mais que os sonhos nos salvam.

    Abençoada seja Inanna Queiroz

    ResponderExcluir
  2. Lindo texto, resume tudo que sentimos, me ajudou muito,q estou muito pra baixo.

    ResponderExcluir