A Dança do Ventre, como é
ocidentalmente conhecido o Raks el Shark, é mais que uma modalidade
de dança, é, vista em sua profundidade, um modo de ver o mundo e de
se colocar nele. Em uma sociedade fundada em preconceitos e
estereótipos, que facilmente esvazia e arranca as raízes de
qualquer construção cultural, a erotiza, a diminui, a transforma em
exercício para agradar ao macho, em comportamento de vadia, isso é,
na verdade, um contra-ataque de um imaginário misógino, eivado de
mecanismos que neutralizem qualquer empoderamento feminino. Deve-se
deixar a mulher alijada do próprio corpo, como se apenas o alugasse
ao real proprietário – o homem.
Uma atividade artística que celebra a
figura feminina em toda a sua complexidade e multiplicidade de
formatos é uma ameaça e algo quase incompreensível que a mulher
esteja se desenhando, se movimentando para si mesma, ficar bonita ela
sempre faz para o outro, não é o que dizem?
Pois bem, a dança do ventre não é
exercício de puteiro, não é venda de corpos, não é passatempo de
desocupadas, dança do ventre é um redimensionamento de identidade.
Treinadas que somos a obedecer, a fugir, a nos submetermos, a
estarmos doentiamente insatisfeitas com nossos corpos, nos
movimentarmos sendo bonitas agora e do jeito que somos, aprendendo a
levantar os ombros e o olhar a não temer a exposição é resgatar a
força feminina. Quem é mulher sabe que devemos andar nas ruas
evitando contato com o olhar porque isso “autoriza” uma abordagem
masculina, temos que tensionar o nosso corpo ao máximo enquanto
caminhamos para não atrairmos comentários ofensivos, estamos sempre
sendo obrigadas a nos travar inteiras, a não deixarmos nosso corpo
se expressar porque estamos constantemente sob ameaça de assédio.
Estamos constantemente bombardeados com
a concepção de que as mulheres são inimigas naturais e esse
comportamento já é reforçado culturalmente já no nascimento das
crianças. Não é segredo para ninguém, que, nos piores momentos de
uma mulher, quem a socorre é uma outra mulher. Pode ser uma vizinha,
uma professora, uma colega, uma desconhecida. Imagine se as mulheres
resolverem se aliar? Que perigo, não é?
Os movimentos ondulatórios, os
movimentos suaves, os movimentos de impacto, braços, face, tronco,
pernas, quadris, tudo vai ofertando ao corpo um novo vocabulário,
despertando o que foi soterrado, alimentando positivamente a imagem
de si mesma e o vigor da imagem apresentada ao outro.
Pense que a
dança do ventre oferece beleza e possibilidades às áreas do
estupro em nosso corpo. Nossos quadris são lindos e são nossos.
Nossos seios são lindos e são nossos. Entenda que
não há desejo de lutar contra a violência para quem não se sente
merecedor de respeito, de ser amado. Como demandar que a mulher pense
o seu corpo no mundo se ela está sufocada por um imaginário em que
a matéria dela está sempre a serviço de outros? O corpo nos
apresenta ao mundo e ele é o templo de passagem de nossa expressão,
de nosso conhecimento, de nossos medos, de nossa vitória. Que ele
seja luz e não caverna povoada de monstros maus.
Pense que um
projeto sem divulgação além do facebook e de um site institucional
atraiu mais de trezentas mulheres. Pense que elas estão em uma sala
sem piso especial, sem espelho e, mesmo assim, com chuva, greve de
ônibus, elas chegam. A arte é perigosa mesmo, né? Ela oferece
outras espécies de espelho.
Mais todo o esforços... são merecidos a minutos de descontração e aprendendo e assumindo nossa identidade de mulher... mulher guerreira, q luta.... trabalha... que é dona de casa...que é mãe e não deixa de ser mulher
ResponderExcluir